Por João C. S. Marques* e Marcello A. Duaillibe Barros**

Uma célebre frase do jornalista norte-americano Henry Louis Mencken (1880 – 1956) nos parece apropriada para o momento: “Para todo problema complexo existe sempre uma solução simples, elegante e completamente errada”. Parece fácil, para alguns, resolver ou indicar soluções para mitigar os efeitos nocivos da grave crise provocada pela pandemia do Novo Coronavírus.

Em tempo, cumpre advertir que a crise atual, no Brasil, além de política, institucional, econômica e fiscal é, acima de tudo, sanitária. Uma crise de saúde, onde os profissionais da área e cientistas do mundo inteiro têm buscado o caminho mais seguro para proteger vidas. E não há, até o momento, nenhuma vacina para combater o novo vírus. Mesmo assim – naturalmente – como nas discussões políticas, religiosas e esportivas, presenciamos debates acalorados e “disputas” ferrenhas no sentido de “vencer” o debate. Coisa de torcedor.

É o que tem ocorrido no país no período recente. Nesse contexto, uma das questões mais levantadas no panorama atual é o debate sobre a principal medida de consenso das autoridades de saúde até o momento: o isolamento social. Em particular, se as quarentenas e lockdowns estabelecidos nos municípios e regiões metropolitanas são legítimos na visão de longo prazo. Essa questão e análise fria é racional e lógica de ser levantada, uma vez que devemos minimizar as perdas sociais e econômicas como um todo.

Contudo, o argumento de que o impacto econômico é maior com as paralisações do que o dos óbitos provocados pela COVID-19 pode não estar correto ao analisarmos os fundamentos econômicos básicos. Um dos conceitos mais importantes que os economistas aprendem é como funciona a função de produção, que podemos, em nível mais amplo, simplificar, chamando de função do Produto Interno Bruto (PIB) ou da atividade econômica. Essa função, na sua forma mais simples, nos diz que a produção de um país, empresa, estado, município e ou região, depende da relação existente entre força de trabalho e capital – pessoas e meios de produção (máquinas, ferramentas, terras etc.), respectivamente. Essa função pode agregar outras variáveis como meio ambiente, ambiente institucional, tecnologias etc.

Em uma analogia simples, imaginemos uma bicicleta tradicional chamada PIB, com duas rodas e dois pedais. Quando os pedais giram eles forçam uma das rodas ao movimento e, a outra roda, logo acompanha-a, e, assim, toda a bicicleta se desloca em uma direção. Nesse exemplo, o capital são os pedais, a força de trabalho é o ciclista, a primeira roda a girar é a produção, a segunda roda as demais atividades econômicas e o deslocamento da bicicleta é o crescimento do PIB!

O que acontece quando reduzimos bastante o tamanho das rodas? Quando mudamos a direção da bicicleta e voltamos? A resposta para a primeira pergunta é que a velocidade do deslocamento fica prejudicada, e, na segunda, que estamos indo em outra direção. Em termos de PIB podemos dizer que estaríamos reduzindo a velocidade de crescimento da economia ou regredindo. Mas o que acontece se perdemos o ciclista?

Se perdemos a força de trabalho, nos resta uma bicicleta imóvel, que nada produz, e precisaríamos de outro ciclista para dirigi-la. Contudo, esse novo ciclista não pedala como o antigo, ele é inexperiente e não tem o mesmo fôlego. Dessa forma, o deslocamento da bicicleta não vai ser o mesmo de outrem até que esse novo ciclista se aperfeiçoe. E se esse ciclista decide dar uma pausa? A bicicleta fica imóvel temporariamente, mas quando o seu ciclista retorna, ela funciona com toda a sua capacidade anterior.

Nessa analogia, fica claro que uma economia não pode ser composta, apenas, por uma bicicleta e seu condutor e sim de vários destes e outros agentes a exemplo dos que fazem as estradas, definem o caminho e o tamanho das bicicletas. Assim, quando tratamos das perdas e dos riscos à vida devemos analisar seus impactos diretos na força de trabalho e nas suas capacidades produtivas.

Não é que a paralisação não seja um problema e não impacte na atividade econômica, ela o faz e com isso temos as projeções de redução da atividade econômica, mas o descontrole da pandemia fez com que essas estimativas ficassem cada vez piores. Quanto mais contágios menos ciclistas teremos e mais lenta será a recuperação econômica quando tivermos de substituí-los e, em casos mais graves, podemos não ter reservas de capital humano, e a retomada será ainda mais difícil.

O que observamos é a simples “redução” do problema que se coloca como um trade off que não existe (vidas vs economia). Em alguns casos, no afã de tentar solucionar a crise e, em outros, puramente por total falta de sensibilidade e conhecimento, o que é pior. Decerto, é um desafio complexo e talvez possamos aplicar a velha máxima de que para todo problema dessa natureza a solução não seja aquela mais simples, a mais fácil. Afinal, se o fosse, já teríamos superado a pandemia.

* Mestre em Desenvolvimento Socioeconômico pela UFMA, Economista, Conselheiro e vice-presidente do Corecon-MA.

 ** Mestre em Administração Pública pela FGV, Economista (UFMA) e Conselheiro do Corecon-MA.

 As opiniões aqui expressas são de inteira responsabilidade dos autores, não refletindo necessariamente as posições do Corecon-MA.