Por André Fernandes*

Nos longos ciclos de desenvolvimento capitalista, determinados setores se apresentam como condutores de um processo de expansão da acumulação. Desde a Revolução Industrial do século XVIII, sob determinadas perspectivas teóricas, teríamos assistido às grandes transformação da história em ondas longas, alternando expansões e crises. Na teoria econômica, Joseph Schumpeter atribuiu grande papel às inovações tecnológicas (a destruição criadora) na alternância dos ciclos.

Em paralelo à crise do Covid-19, que dizima, a essa altura, milhares de vidas pelo mundo inteiro, assistimos – compreensível e possivelmente, menos atentos – à escalada de setores que prometem revolucionar a economia. Contudo, aos economistas não é facultado o distanciamento dessa agenda de transformações. Nesta quarta revolução industrial – a da indústria 4.0, conforme convencionou-se denominar – os setores líderes estão situados, dentre outros, na inteligência artificial, na “internet das coisas” e na internet 5G. Não é por acaso, numa perspectiva histórica mais crítica, que esses setores se impõem como grandes potenciais para serem “carros-chefes” da economia mundial. Entretanto, até aqui os condicionantes dessa realidade interessam muito menos do que os efeitos sobre a atividade econômica e sobre as nossas perspectivas.

Com a internet 5G, por exemplo, podemos pensar em uma série de novos desenhos da atividade econômica mundial. Talvez fosse inimaginável há uma ou duas décadas, visualizar uma substituição dos atendimentos médicos habituais por uma medicina remota. E é possível que a rotina dos atendimentos médicos presenciais, para uma enorme gama de especialidades, não seja tão afetado num mundo pós-pandemia. Contudo, atividades da educação e do turismo de negócios protagonizam a tendência das atividades remotas, como as conhecemos, há um tempo mais considerável.

Na esteira das transformações, vários setores tradicionais tem desestruturado seus desenhos para se adaptarem ao paradigma tecnológico em curso. Companhias aéreas tem visto seus papéis se “derreterem”. A companhia aérea brasileira Azul, por exemplo, chegou a ter suas ações em patamares de R$ 50,00 ainda em fevereiro deste ano e viu seu valor despencar, a ponto de fechar o dia 15 de maio em R$ 11,08. Isso revela o forte desaquecimento da demanda. As plataformas que permitem até centenas de usuários em uma sala virtual podem substituir a contento algumas viagens a negócios. Não parecem ser apenas uma mudança circunstancial imposta pela pandemia, mas um novo paradigma.

Mais salas de aulas ganham novo formato a partir da crise do novo coronavírus. Com o ensino remoto emergencial sendo utilizado como alternativa às medidas de isolamento social, a rotina das escolas e universidades apontam justamente na direção da EAD. A construção desse modelo requer, das instituições de ensino, a incorporação de profissionais da tecnologia da informação, responsáveis pelo suporte dos ambientes virtuais de aprendizado.

Dados divulgados na última Pnad Contínua nos mostram que 25% da população brasileira não tem qualquer acesso à internet. No campo esse número é maior: metade das pessoas não dispõem desse meio de comunicação. Por isso, são pertinentes os questionamentos sobre a eficácia de um novo paradigma de comunicação voltado à educação.

Os efeitos mais profundos da pandemia do novo coronavírus ainda são enigmáticas, mas algumas indagações já podem ser apontadas. A exemplo do ensino remoto, que desarticula os objetivos elementares da educação em regiões mais pobres, outros setores podem sentir maiores impactos por certa inadequação? Qualquer resposta provisória aos dilemas que esta crise nos impõe demarca a dúvida sobre a existência de uma mera interação abstrata entre oferta e demanda que coordena a vida econômica ou se novos paradigmas são concebidos dentro dos centros dinâmicos de acumulação e irradiados para que todo o mundo se adeque..

* Economista.  Mestrando em Desenvolvimento Socioeconômico (UFMA) e Conselheiro do Corecon-MA.

 As opiniões aqui expressas são de inteira responsabilidade do autor, não refletindo necessariamente as posições do Corecon-MA.