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Os economistas pertencem a diversas Escolas de pensamento e a outros tantos padrões de qualificação: ora são clássicos, neoclássicos, keynesianos e pós-keynesianos; ora são monetaristas, marginalistas, estruturalistas, ortodoxos, heterodoxos e liberais. E ainda estão ligados a questões ideológicas.

São professores, profissionais liberais, membros de associações e de corporações; ocupam cargos e prestam seus serviços aos setores público e privado da economia, principalmente aos governos e ao sistema financeiro.

Nos últimos tempos tenho escrito sobre muitos assuntos ligados à economia. Externei e alimentei grandes esperanças sobre o novo governo americano, porém, logo em seguida, tive que tentar explicar a famosa ‘crise da bolha’, ainda repercutindo no mundo inteiro; dei, também, alguns palpites sobre a economia brasileira em face dessa crise, apesar do então decantado aparecimento de uma nova classe média alimentada por transferências de renda e concessão de crédito.

Não pude resistir à tentação de voltar a escrever sobre economia ao ler o artigo ‘A academia não previu a crise’, de Raghuram Rajan, professor de Finanças da Booth School of Business, da University of Chicago, texto publicado no jornal ‘Valor Econômico’.

Uma outra matéria ‘O barraco dos doutores’, (revista Época, edição de 14/10/19), tem um trecho que diz: “Os tempos mudaram, mas o embate continua entre economistas ortodoxos – alguns deles liberais e heterodoxos ligados a partidos de esquerda”, a propósito de questões ligadas à operacionalização do ‘teto’ de gastos estabelecidos pelo governo federal.

A Economia é menos ciência e mais arte, pois todo arcabouço teórico está disponível, mas depende da maestria de quem o utiliza e já foi chamada de ‘economia política’ havendo quem advogasse seu retorno. Há muito caíram por terra as teorias dos mercados perfeitos, ‘livres e irrestritos’, incapazes de permitir algo de errado, e de que os consumidores agem racionalmente ao tomar suas decisões; além do mais, sempre haverá economistas ligados a governos e empresas, direta ou indiretamente, porém o comportamento ético desses profissionais deve ser considerado ponto pacífico.

A crise no mercado imobiliário americano foi gerada no ventre do seu próprio sistema: grandemente alavancado pelos financiamentos aos mutuários e estes estimulados pelas vantagens oferecidas, esse sistema gerou hipotecas negociadas no mercado secundário dos bancos de investimento. Daí por diante foi só papel gerando papel, moeda fiduciária; bastou que os mutuários não pagassem as prestações da sua tão sonhada casa própria, para a crise instalar-se em ondas sucessivas.

O resultado disso tudo todos nós sabemos. O Tesouro americano, via o Federal Reserve (FED), o banco central americano, despejou trilhões de dólares no mercado, estatizando bancos ou simplesmente livrando-os da falência, procedimento mais ou menos adotado pelos bancos centrais das economias desenvolvidas; como na crise de 1929 não houve essas ‘salvaguardas’, aconteceu a quebradeira geral.

Há um trecho no artigo do professor Rajan, que diz: “[…] poderíamos ter compreendido por que alguns políticos americanos encorajaram o setor privado a financiar residências acessíveis, enquanto outros desregulamentavam as finanças privadas […]”, mas ele mesmo admite não ter havido advertências nesse sentido.

Sabemos que o Brasil já viveu uma grande expansão no setor imobiliário, gerador de emprego e renda, contudo, como os americanos, não tivemos os cuidados devidos, para evitar o que aconteceu por lá também acontecesse por aqui. Os preços dos imóveis, naquela conjuntura, estavam subindo e ninguém acreditava, em sã consciência, que pudessem vir a cair um dia, mas foi o que aconteceu lá.

Dizem que economistas mais ou menos fatalistas costumam errar nas suas previsões, contudo prestam mais atenção quando os fundamentos econômicos estão se deteriorando, e alertam o mercado; há outros mais liberais que não ligam muito e até justificam certas práticas, como a de socorrer bancos claramente caminhando para a insolvência. A verdade é que os economistas precisam ser ajudados pelos contadores e auditores, que devem velar pelos ‘princípios contábeis geralmente aceitos’; os balanços e demais demonstrações financeiras apresentadas à análise precisam estar consistentes e transparentes.

O professor Raghuram argumenta que três fatores explicam nossas dificuldades: “especialização, a dificuldade de se fazer previsões e o descolamento entre boa parte da profissão e o mundo real”, e que os economistas precisam ser cada vez mais generalistas, entendendo tanto de macro quanto de microeconomia, concluindo: “[…] o verdadeiro motivo pelo quais os economistas deixaram de prever a crise poderia ser bem mais mundano […], simplesmente não estavam prestando atenção”.

A Academia continua mais preocupada com o curto prazo das suas teses do que em fazer previsões; deveria estar mais interessada em descobrir, por exemplo, como países podem crescer independentes do regime de governo ou de quem os governa, para que a renda gerada possa ser bem distribuída ao “alívio da pobreza mundial”.

Essas são preocupações recentes do economista francês Thomas Piketty e de seus colegas ganhadores do Prêmio Nobel de Economia deste ano: Esther Duflo, Michael Kremer e Abhijit Banerjee.

jhgf

Antônio Augusto Ribeiro Brandão é economista