A revista Época, edição do dia 7/10/2019, publicou dois textos importantes: o primeiro “Desigualdade e falta de imaginação”, artigo de Monica de Bolle, e o segundo “Como desatar o nó da desigualdade”, reportagem assinada por Fernando Eichenberg, de Paris, a propósito da divulgação do novo livro do economista francês Thomas Piketty, “Capital e ideologia”.

Esses textos vêm reforçar a tese levantada por mim em “Desafios à teoria econômica/Challenges to the economic theory”: estaríamos necessitando de novas formulações acadêmicas?

O artigo comenta sobre os desafios e perplexidades
enfrentados pelos mercados e seus protagonistas desde
o início da crise da “bolha”, nos Estados Unidos, ocasião
em que as práticas de política monetária heterodoxas, de
auxílio à liquidez, contrariando a teoria econômica tradicional, evitaram um novo “crash” e não causaram inflação, apesar dos seus efeitos colaterais.

Depois de fazer referências ao que vem propondo
André Lara Resende, com sua Teoria Monetária Moder-
na, a economista, posicionando-se contra a sugerida “monetização de déficits, revela sua explicação para o fato de que tamanha expansão monetária não tenha causado inflação: segundo ela, como a renda ficou cada vez mais concentrada na mão dos mais ricos, que gastam
menos em consumo, o que sobrou para os mais pobres
e classe média, que gastam mais em consumo, não teve
forças para pressionar o sistema de preços, e por isso não
ouve inflação.

Alega, também, que a política monetária precisaria
ser complementada pela política fiscal, sem o que “os juros baixos não são capazes de produzir grandes estímulos”.

E conclui: “Portanto, a desigualdade no Brasil está em
franca ascensão, revertendo o processo que havíamos
testemunhado nos últimos 20 anos”.

Em meu livro “Desafios Challenges”, há uma expli-
cação do porquê não ter havido inflação face ao afrouxamento da liquidez via “Quantitative easing”, nos EUA,
em 2008: argumentado com a Teoria quantitativa da moe-
da (MV=PT), teria ocorrido baixa velocidade da circulação da moeda em V, portanto, sem repercussões sobre a
Base monetária e seu multiplicador. Havia prenúncios
de uma recessão e de estar ocorrendo a chamada “armadilha da liquidez”, conforme definida por John Maynard Keynes.

Já a reportagem é bem extensa sobre as novas concepções do economista francês, que já havia publicado
“O capital do século XXI”, tratando principalmente da al-
ta desigualdade em diversos países do mundo, desta vez incluindo Brasil, China e Índia. No seu novo livro, ele sugere a taxação das grandes fortunas, como forma de redistribuir a renda. E diz: “Quem está no topo da pirâmide social, o 1% mais rico do mundo, captou a maior parte do aumento da riqueza nas últimas décadas”.

Critica os impostos que incidem mais sobre o consumo do que a renda e o patrimônio, prejudicando os
mais pobres, de forma regressiva. E resume: “Há mais de
um século, o capitalismo tem mostrado poder de tirar
um grande número de pessoas da pobreza, mas o problema da desigualdade persiste”.

E conclui a reportagem: “A principal proposta do novo livro de Piketty, Capital e ideologia, é a criação de um
‘socialismo participativo’, com a adoção de medidas que
já são comuns na Alemanha”.

ANTÔNIO AUGUSTO RIBEIRO BRANDÃO