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Artigo originalmente publicado no jornal O Estado do Maranhão 

Acabo de ter notícia de novo serviço do Uber. Ele oferecerá aos clientes, no menu de preferências de viagem, o modo silencioso, significando tal escolha que o condutor ficará em completo silêncio durante o trajeto até o destino, sem trocar uma palavra sequer com as pessoas ali pertinho dele, a menos de um metro. O silêncio exigirá motoristas sem pontos nas carteiras de motorista, com bastante experiência e notas altas na sua avaliação pelos clientes. Como contrapartida, a tarifa a ser cobrada será mais elevada.

Em recente viagem aos Estados Unidos, em Chicago, um desses profissionais do Uber, um rapaz negro, alto e muito simpático, me disse gostar bastante de seu trabalho, exceto por um aspecto, o da mudez de alguns passageiros. Não de todos, muito menos da maioria, mas, mesmo assim, ele gostaria de conversar mais, em contraste com a situação que surge no modo silencioso.

Antes de prosseguir, quero pedir mil desculpas aos entusiastas da escrita de textos com três palavras, em lugar de apenas uma que diz a mesma coisa, como, por exemplo, “vai estar oferecendo”, como comumente se ouve, em vez de “oferecerá”, como usei acima. Gosto da forma concisa, enxuta, sem firulas e torneios verbais de redigir, talvez por influência das frequentes e repetitivas leituras de Machado de Assis; ou isso é algo inato em mim. É de minha natureza, penso, tentar dizer o máximo com o mínimo, em lugar do mínimo com o máximo, sendo, como é esta última, expressão não raramente tendente à obscuridade.

Agora, não fique surpreso, caro leitor. Assim como de repente irromperam dezenas de classificações de gênero das pessoas, rapidamente difundidos por muitos países, como fogo em mato seco ou na Amazônia, a partir de um início modesto, quando os seres humanos eram classificados tão só como homem e mulher, da mesma forma se multiplicarão os estilos de viajar com o uso de aplicativos e seus menus. Estamos presenciando agora o acréscimo do modo silencioso.

Quem poderá garantir que em poucos meses outros, dos mais simples aos mais bizarros, não estarão disponíveis? Imagino alguns, nos quais quem dirige é obrigado a não dizer coisa alguma, mas com direito a remuneração mais alta.

O modo pornô. O usuário já entra na condução falando em voz alta, com um palavreado de cunho exclusivamente sexual, com um smartphone de última geração, com o qual assistirá vídeos pornô a todo volume durante o trajeto até seu destino. Se for um casal, tentam logo praticar aquilo que a imprensa chamou, durante longo tempo, de atos libidinosos. Tem de aguentar em nome da tarifa compensadora.

O modo praia. Aqui a paciência do condutor terá de passar por um teste difícil de suportar, como aqueles de superar o muro de Trump. Mulheres de fio dental, homens de shorts idem, crianças bagunceiras, todos com as roupas ensopadas de água salgada e fungando o tempo todo, mas felizes e famintos, apesar do almoço de apenas uma hora atrás.

É pegar ou largar (a tarifa é mais alta, lembrem-se). O modo churrasco. Antes dos três amigos entrarem no veículo, já o homem ao volante sentiu o bafo de cerveja e cachaça, misturado com o de tira-gosto feito com óleo barato.

Dá náuseas de vômito, mas ele se contém, pois o pensamento na tarifa o ajuda a suportar a situação.

Agora falam no Uber Motel, que iria impor a participação dos motorista nas visitas dos casais aos motéis. Tudo bem na primeira. Mas ele aguentaria 5 a 6 vezes por dia, todo dia?

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*Lino Raposo é economista e membro da Academia Maranhense de Letras